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Educação Só imaginação?!

Além da imaginação!!!

24/02/2022 às 08h28
Por: Redação
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Além da imaginação!!!

Texto do professor Ivo Franco

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Nossa dignidade ameaçada, a fome, o desemprego, o desamor, a apatia, o desespero. Mas isso não tem nada a ver comigo, é só imaginação. Será?

Professora Renata Saggioro Silva

 

 

 

Não existe absolutamente nenhum silêncio no trânsito caótico da cidade. Sob avanços lentos, tem curso a interminável marcha de milhares de automotores impacientes, patológicos, resistentes, cuja multiplicidade de significados resumia-se ao trinado ressonante de suas respectivas buzinas.

Calor insuportável. A marcha lenta fez esquecer até mesmo de recorrer ao movimento lateral do “dial” para me distrair. Certo momento, a estática passou a compor a trilha sonora de meu suplício de fim de tarde.

Se um dia “a televisão matou a janela”, hoje a “a janela matou o rádio”. Enfadado pela programação que parecia cópia do dia anterior, resolvi desligá-lo. Meus olhos projetaram-se para-brisas afora, indo de encontro a um mundo inquieto, delirante, certamente esquecido de como um dia houve a possibilidade real de ser melhor. O nosso mundo conferia a algumas pessoas o aspecto de mortos vivos. A falta de comida, a fome e o sofrimento têm capacidade de esculpir o rosto de forma tão rústica quanto o faz em objetos de madeira: objetifica e coisifica a ponto de não conseguirmos distinguir alguns moradores em situação de rua, de outros.

Periscópios aleatórios percorriam o trânsito modorrento em busca  de qualquer prêmio: trocados, pacotes de bolachas, garrafas d´água, alimento! Algo que servisse para aplacar a fome, o desamparo ou ambos. De repente, um desses olhares desligou-se de todas as outras possibilidades e pousou diretamente sobre o meu. Tentei fingir que não era comigo. Duas ou três batidas no vidro lateral dissuadiram-me.

-Moço, me vê um trocado, estou com fome! Pelo amor de Deus, faz três horas que não como nada, parece que tenho um buraco no estômago.

Evidente ouvi, mas fiz de conta que pegava alguma coisa caída no chão, talvez houvesse a mínima chance de que o infeliz espectro me desse paz. Desapontamento. Quando levantei ainda estava lá, o homem-caveira, o homem-cadáver, o morto vivo. Parecia capaz de dizer tantas coisas apenas com o rosto... Eu, cansado do longo e exaustivo dia de trabalho, sentia-me anestesiado, incapaz de qualquer gesto de empatia. Trabalho. Palavra engraçada. Do latim “Tripalium”. Sofrimento, numa tradução literal. Em muitos momentos da história, foi mesmo. Associado à escravidão em Roma, à escravidão em outros lugares do mundo, contudo, hoje em dia o sofrimento se traduz na ausência, na falta dele. Esses caminhantes são filhos e filhas de gerações sem emprego, visto que os postos de trabalho agora estão ocupados por máquinas. O trabalhador antigamente ao menos podia mandar os filhos à escola, dar dignidade à família. Depois da mecanização da indústria ganhamos o quê? Legiões de desempregados, milhões de seres humanos em situações de rua, novos ricos da bolsa de valores, novos pobres da bolsa de valores. Mundo novo.

Minha estratégia não deu certo mesmo. Ele ainda permanecia ali parado, quase sem respirar, os olhos encimados por grossas sobrancelhas grisalhas, fixos nos meus de forma tão intensa que por alguns instantes parecia não haver mais nada na via pública além de nós dois.

Eu e o homem de madeira não estávamos sozinhos. Um careca de rosto pequeno e queixo proeminente nos observava do carro ao lado sem tirar as mãos do volante. O suor lhe caía testa abaixo e o semblante de reprovação era algo tão evidente quanto a persistência do andarilho.

-Moço, me ajuda, tô com fome!

-Não posso-respondi-não tenho dinheiro nem comida aqui.

-Só você pode me ajudar!

Dia estranho. Por que somente eu poderia ajudar? Ele continuou vociferando algo ininteligível do lado de fora, enquanto quase instintivamente reparei nos outros carros. Por que a tal figura não pediu ajuda no carro da frente? Quem sabe até esse cara que me desaprova poderia ajudá-lo!

Por conta da correria da manhã no escritório, esquecera de tirar o terno. A sensação térmica devia ser de no mínimo uns quarenta graus. Calor insuportável. Mal estar. As coisas começaram a girar na minha cabeça: o homem cadáver, o sujeito do carro ao lado, os outros carros, eu, tudo enfim misturados como um amálgama recém saído do liquidificador. Escuro. Escurecia? Não. Eu escureci. Perdi os sentidos!!

Acordei num lugar totalmente diferente.

Frio. Meu uniforme de trabalho, terno, gravata foram confiscados e substituídos por roupa de prisão de tecido grosso.

A chuva do lado de fora precipitava-se em gotículas cela adentro junto com um aroma leve de café, que parecia vir de longe. Havia um guarda em frente às grades do cubículo de cimento. A roupa de tecido grosso fazia minha pele coçar.

-Onde estão minhas coisas?

O soldado ensaiou um riso.

-Que coisas?

-Meu lap top, carteira, valise, terno e gravata.

A reação do soldado foi algo estranho.

Afastou-se e permaneceu em silêncio. Da posição onde ficou, depois disso só conseguia ver sua sombra longilínea qual fantasma no chão do corredor. Restava aguardar. Acho que dormi.

-Acorde, homem, acorde! -deitado no chão frio, dei de cara com dois sujeitos em frente à cela. O primeiro guarda saíra. Por certo esperava em algum outro lugar.

-Soldado, em posição!

Parecia ser um general. Ao seu lado, o cara do trânsito, o dos olhos pequenos e vivazes, que suava me encarando com reprovação. Depois de ouvir o comando de seu superior o subalterno ficou em posição. O general se dirigiu ao homenzinho:

-Então, pode afirmar que é ele? Reconhece esse sujeito?

O baixote mediu-me de cima abaixo.

-Sim, tanto mais abatido, mas é ele. O mesmo soldado que deixou um dos nossos morrer com um tiro na barriga enquanto fugiu a toda com o jipe!

-Não, não-protestei-Não havia ninguém sendo ameaçado! Era só um morador de rua pedindo comida, eu não tinha, não podia fazer nada!!

Entreolharam-se. Riram. O homenzinho ficou em silêncio. O rosto do general assumiu expressão sombria.

-Ou o senhor finge loucura para livrar-se da pena ou está mesmo louco. Em todo caso, se não estiver, descobriremos e será punido com a pena mais severa do exército.

Não, não queria saber que pena era aquela. Fora um estúpido mal entendido! Eu não era um prisioneiro de guerra, apenas alguém na hora do rush voltando do dia difícil de trabalho. Isso certamente será esclarecido! 

Só fiz o que milhões de pessoas fazem todos os dias mundo afora. Há grande diferença moral entre negar comida e deixar de prestar socorro no meio de uma guerra, não há?

 

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População em situação de rua cresce e fica mais exposta à Covid-19. Disponível em https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=35811 acesso em 01 fev 2022 

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Professora Renata Saggioro Silva
Professora Renata Saggioro Silva
Sobre Pedagoga, Professora de Educação Básica desde 1996 (Diadema e SBC), Coordenadora Pedagógica (Prefeitura de Diadema), Dançarina profissional e professora de Danças Brasileiras e Ciganas, Pós-Graduada pela USP em “Combate à Violência doméstica contra crianças e adolescentes”, pela PUC em “Teatro e Psicodrama”, pela FMU em “Dança na escola e Danças Brasileiras”, pela IEGABC em “Arte Educação e Psicopedagogia”. Ministrante de alguns cursos e palestras sobre arte-educação.
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