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Baumann e Bob Esponja

02/02/2022 às 22h10
Por: Redação
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Baumann e Bob Esponja

Texto do professor Ivo Franco

Qualquer semelhança é mera coincidência. Será? Ficção ou realidade? Passado ou presente? Depois de ler o texto do professor Ivo Franco, acredito que o Stephen Hillenburg (criador do Bob Esponja) era meio vidente, em especial das situações de alguns países, como nosso Brasil. Será? Eu diria que a relação feita pelo professor Ivo é, no mínimo, intrigante. Confira.

Professora Renata Saggioro Silva

 

No início dos anos 2000, um cartum de aparência engraçada virou febre no mundo inteiro. “Bob Esponja Calça Quadrada” (criado por Stephen Hillenburg) levantou questões mais problemáticas do que parecem, conseguindo excelente comunicação com dois públicos de faixas etárias totalmente diferentes, por isso é brilhante. Com as crianças, a conexão ocorria por meio das cores, caras, bocas das personagens, cores... recursos excelentes e muito bem utilizados. Conosco “o buraco é mais embaixo”.

Poderíamos começar dizendo que a realidade criada no desenho faz uma referência consciente ou inconsciente ao “mundo líquido” de Zigmunt Bauman. A questão de ser intencional não importa. De fato, o desenho consegue definir bem o mundo de hoje: os peixes representam pessoas desanimadas, apáticas, vivendo de modo quase automático, acrítico e sem questionar as coisas, num universo onde parece não haver muitas referências. O próprio protagonista é exemplo disso, sendo a esponja representação de algo que absorve tudo. No caso dele, quaisquer ordens que porventura partam do Sirigueijo, não importando o quão estúpidas e vexatórias sejam. Quem nunca passou por isso? 

Duas personagens fazem um contraponto muito importante:  Patrick: alguém que pensa pouco (por ser equinodermo ou reduzir-se a isso) vive num habitat que favorece o surgimento de legiões de estrelas do mar como ele. Já Sandy, esquilo fêmea, se destaca pela inteligência e pelo estudo, dentro de um lugar ao qual ela não pertence nem um pouco. Vive isolada numa redoma e precisamos lembrar que estamos falando de alguém supostamente tão elevado que nem da terra faz parte porque esses roedores vivem em árvores (não no fundo do mar, como no cartum). Aqui temos uma representação bem honesta das pessoas inteligentes, cada vez mais isoladas no mundo capitalista e rechaçadas por padrões que as excluem. Incluir gente assim poderia ser muito perigoso. Pessoas bem informadas não costumam ser consumidores ávidos, tampouco aceitam de bom grado as regras de um contrato social injusto, tendendo frequentemente a tentar reescrevê-las.

Sirigueijo incorpora os senhores do nosso tempo que, tomados pela desenfreada ganância, são incapazes de enxergar coisas óbvias, afinal, se a filha não for adotiva, é sinal bem provável de que Escobar, baleia macho, andara visitando sua casa. Ali no restaurante “Siricascudo” estão presentes três peças do quebra cabeças que ajudam a transformar a vida presente no que ela é: a precarização do emprego, comida de fast food e valorização excessiva do dinheiro. Hoje, infindáveis legiões de jovens poderiam muito bem estar aproveitando os benefícios de uma universidade, ou abrindo uma startup e têm seus horizontes limitados pelo trabalho precário, com poucos direitos, assolados pela comida quase sintética desses restaurantes. O chefe encarna a voracidade do mercado financeiro, cuja caricatura ainda consegue ser leve frente à crueza do mercado de trabalho atual, cada vez mais minguado devido à combinação de especulação financeira e  mecanização dos postos.

Plâncton, o concorrente de Sirigueijo encarna os males mais profundamente arraigados na alma humana: o narcisismo das pequenas diferenças já estudado por Sigmund Freud há tanto tempo, efeito colateral bastante dolorido numa sociedade que insiste em nos proclamar iguais, apesar de nossas diferenças.

Por último e não menos importante o Lula Molusco numa condição além de apática. Depressão talvez? Quem sabe o Lula Molusco sofra do mesmo problema de Plâncton e que afeta tanta gente hoje em dia: incapacidade de aproveitar a própria vida. Com o advento e capilaridade das redes sociais, a existência se transformou num grande condomínio, onde há uma disputa ferrenha para saber quem consegue parecer mais feliz, ainda que não seja. Lula Molusco personifica esses males, pois não consegue ver graça em nada, nem levar a vida com um pouco de leveza. No desenho fica engraçado, entretanto vá conviver com alguém assim e veja o quanto é difícil! Complicado que seja, consigo compreender e me solidarizo. Feito Joseph K. em “O Processo”, fomos “convidados” a experimentar um mundo estranho, às vezes hostil e que na maioria das vezes não nos deixa compreender direito como as coisas ocorrem, porque não há explicação evidente e ainda que houvesse, o sujeito moderno não disporia de tempo livre para apreciá-la.

Certos episódios, bastante bem engendrados levam a pensar. Confesso não figurar entre os espectadores assíduos do programa, mas lembro bem de um episódio no qual o “Balde de Lixo”, restaurante de Plâncton e o “Siri Cascudo” disputavam para ver quem criaria o lanche com mais “sabor”. O resultado final era uma massa amorfa e banhada em óleo, cujos consumidores praticamente imploravam para comer. Parece engraçado, ou uma caricatura da terrível realidade?

Num outro desenho houve uma reflexão sobre a criatividade, em que Lula Molusco é representado como alguém sem imaginação, outro dos tristes sintomas hodiernos, onde as coisas se parecem cada vez mais com cópias chatas umas das outras.

Reflexões a parte, Bob Esponja consegue ser ácido sem deixar de ser divertido e ainda é uma excelente opção de entretenimento. Mais do que isso, prova que é possível olhar o mesmo objeto e enxergar várias coisas diferentes.

 

Imagens disponíveis em:

Bob Esponja: https://pt.clipart.me/free-spongebob-vector-27398

Zygmunt Bauman : https://citacoes.in/autores/zygmunt-bauman/

 

QUER SABER MAIS?

A modernidade líquida de Zygmunt Bauman – disponível em https://www.ebiografia.com/zygmunt_bauman/ 

Criador de Bob Esponja – disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/11/criador-do-bob-esponja-stephen-hillenburg-morre-aos-57-anos.shtml 

 

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Professora Renata Saggioro Silva
Professora Renata Saggioro Silva
Sobre Pedagoga, Professora de Educação Básica desde 1996 (Diadema e SBC), Coordenadora Pedagógica (Prefeitura de Diadema), Dançarina profissional e professora de Danças Brasileiras e Ciganas, Pós-Graduada pela USP em “Combate à Violência doméstica contra crianças e adolescentes”, pela PUC em “Teatro e Psicodrama”, pela FMU em “Dança na escola e Danças Brasileiras”, pela IEGABC em “Arte Educação e Psicopedagogia”. Ministrante de alguns cursos e palestras sobre arte-educação.
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