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Colunistas Quem foi Charles?

Essa história tem início num lugar pouco usual para o começo de qualquer enredo. Meu sofá.

10/01/2022 às 02h00 Atualizada em 12/01/2022 às 03h38
Por: Redação
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Essa história tem início num lugar pouco usual para o começo de qualquer enredo. Meu sofá.
  1. Peguei no sono. Súbito, lá estava a caminho daquele lugar estranho ao qual alguns de nós temos o privilégio de sermos transportados: o mundo dos sonhos. Digo alguns de nós, porque na maioria das vezes não recordo de meus sonhos, assim, acho justo questionar: viagem da qual não lembramos é viagem feita? Talvez...

Bem, o sonho não era assim tão claro. Apenas lembro de estar num lugar, não identificável, de repente vi soldados, muitos deles, que  aparentemente mandavam a gente deitar no chão, ou recuar, não sei bem. De repente, salvas de tiros de metralhadoras eram destinadas a nós. Sim, havia mais gente comigo. Eu sabia que estava sendo metralhado, contudo era algo bastante esquisito, porque apesar de participar diretamente da história, também era um pouco espectador, elemento ambíguo, dual e estranho daquela fantasia.

Isso aconteceu pela manhã. Acordei. O dia transcorreu normalmente e dei conta de meus afazeres. Fui pagar umas contas, dar umas voltas, passei na casa de um amigo que não via há algum tempo que lá pelas tantas  recomendou um filme muito bom que ele havia comprado. Estávamos na época do DVD, “o streaming” ainda não era coisa da moda. Até que gostava.

Voltei para casa curioso a fim de conhecer o conteúdo daquele filme que ele, solícito, emprestou. “Missing”, o título. Em português “Desaparecido”. “Filmes de sequestro sempre são bons” pensei, até cogitando deixar para assistir outro dia, todavia, sem nada melhor o que fazer, decidi iniciar. A capa já chamou atenção, por apresentar um Jack Lemmon bastante envelhecido ao lado de Sissy Spacek, a mesma atriz que brilhou na primeira versão de “A maldição de Carrie”, ao menos creio que tenha sido a primeira, foram tantas afinal.

Pus o filme pra rodar.

Jack Lemmon dá um show de interpretação, pois ao invés dos exageros caricatos tão explorados por ele ao lado de Marlyn Monroe e Shirley Maclaine em filmes clássicos, no longa de Costa Gravas vemos um ator contido e cirúrgico na medida dos sentimentos que deve apresentar mediante as situações ali vivenciadas. Teve mesmo uma atuação brilhante contracenando com Sissy, que em minha modesta opinião não comprometeu a narrativa.

Daqui em diante, sugiro aos amigos cinéfilos mais ferrenhos que parem de ler porque terei de dar spoiler a fim de abordar a relação, ou não, com meu sonho.

No longa metragem, o jovem americano Charles Horman vai viver com a esposa num país da América do Sul, onde certo dia dia, tem início uma ditadura militar. Charles tem a casa invadida e lá pelas tantas desaparece, deixando a esposa desesperada, interpretada por Spacek, sem saber o que fazer, não restando outra alternativa a não ser pedir pela ajuda do sogro, interpretado por Lemmon, um velho investidor de Wall Street que não concordava com o estilo de vida do filho.

Ao chegar na América do Sul, o sogro vai imediatamente procurar as autoridades locais, que parecem bastante reticentes em dar notícias sobre o filho do sujeito. A história tem momentos comoventes, devidamente catalisados pela brilhante atuação de Jack Lemmon.

Depois de pressionar bastante, o homem descobre que o filho fora uma das centenas de vítimas metralhadas no Estádio Nacional do Chile, durante a ditadura de Augusto Pinochet. Depois de ser metralhado, o rapaz ainda foi emparedado e seu pai recebeu essa notícia horrível por telefone! Houve várias tentativas de cercear a apresentação do longa metragem logo após sua gravação, mesmo porque questionava a participação norte-americana na instalação das ditaduras na América do Sul. 

O filme de Costa Gravas é sem dúvida algo extremamente necessário em um tempo no qual existem pessoas que acreditam que ditaduras sejam solução para qualquer coisa. Qualquer regime que não preze pela liberdade dos indivíduos, entenda-se por liberdade uma construção coletiva, e pelo principal bem, que é a vida humana, não deve ser considerado útil para nada nem para ninguém. Mais do que nunca precisamos revisitar os livros de história e dar voz aos bons historiadores, que sempre podem lançar luz a episódios esquecidos como este relatado no artigo.

Caro leitor, na vida tudo é uma questão de olhar: realmente fiquei bastante intrigado em ter um sonho onde estava sendo metralhado e no mesmo dia ver um filme a respeito do assunto. Pode ser coincidência, claro. Fico aqui na mesma posição do observador que frente a um vaso de Rubin tenta inutilmente resolver se está diante de um vaso ou de dois rostos justapostos. Apelo para Shakespeare: Há mais mistérios entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia. Se o leitor possui olhar mais científico, dirá que se trata de coincidência. Se possuir formação espiritualizada, dirá que pode ter sido um sinal do lado de lá. Quem sabe? Juro que também carrego essa dúvida.

Sincronicidade Junguiana? Experiência espiritual? Fico em cima do muro. De qualquer maneira encerro este artigo com dois desejos: Ditadura nunca mais! 

Descanse em paz Charles Horman e também todas as almas perdidas no Estádio Nacional.

Texto escrito pelo professor Ivo Franco

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Professora Renata Saggioro Silva
Professora Renata Saggioro Silva
Sobre Pedagoga, Professora de Educação Básica desde 1996 (Diadema e SBC), Coordenadora Pedagógica (Prefeitura de Diadema), Dançarina profissional e professora de Danças Brasileiras e Ciganas, Pós-Graduada pela USP em “Combate à Violência doméstica contra crianças e adolescentes”, pela PUC em “Teatro e Psicodrama”, pela FMU em “Dança na escola e Danças Brasileiras”, pela IEGABC em “Arte Educação e Psicopedagogia”. Ministrante de alguns cursos e palestras sobre arte-educação.
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