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SÓCRATES E A SESSÃO DA TARDE

16/12/2021 às 21h32 Atualizada em 16/12/2021 às 21h49
Por: Redação
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SÓCRATES E A SESSÃO DA TARDE

"Ser ou não ser, eis a questão", "Só sei que nada sei", "Conhece-te a ti mesmo", "Tudo vale a pena se a alma não é pequena";  já diziam os antigos e famosos pensadores.

 Tudo o que lemos, o que assistimos, o que compramos, tudo o que fazemos ou o que NÃO fazemos tem por trás uma filosofia, uma teoria sobre como deve ser o mundo, as pessoas, os comportamentos: livres ou dependentes de alguém, escravos ou alforriados de ideias e ações de outrem. Vejamos o que diz nosso caro professor Ivo Franco sobre o assunto, sobre nossas ações do dia a dia e suas influências. 

Professora Renata Saggioro Silva

(Texto escrito pelo professor Ivo Franco)

Sessão da Tarde dos anos 80 e 90. Excelente fonte de muitas reflexões interessantes. Passados alguns anos de minha infância e início de adolescência, comecei a fazer considerações mais cuidadosas a respeito das coisas que via naqueles filmes. Indico ao leitor, do mesmo período, “Só resta a esperança”, “Te pego lá fora” e “Quero ser grande” que passavam sempre que “A Lagoa Azul”, o Chaves da Globo, não estava no ar.

Nesse artigo, caberá utilizar uma palavra que está bastante em moda: “disclaimer”, termo usado de modo geral quando alguém quer comunicar que está só realizando uma problematização e não recomendando ou afirmando nada. Acho que em nosso bate papo de hoje cabe bem, porque não sou filósofo, apenas alguém bastante curioso que gosta de flertar com a filosofia, contudo, Voltaire, na “Enciclopédia”, rolou a bola direitinho: “quando não souber de uma coisa, diga que não sabe”. É isso que estou fazendo agora. Trata-se somente de uma opinião acerca de um filme e como infelizmente o diretor e autor já está morto, a coisa ficará no campo da opinião mesmo.

Cabe aqui um breve resumo do “Mito da Caverna” apresentado por Platão em “a República”, antes de qualquer coisa. Segundo o filósofo, havia dentro de uma caverna alguns homens acorrentados, desde sempre, contemplando sombras numa parede, de modo que eles pensavam que a realidade se resumia àquelas sombras. Certo dia, um dos sujeitos se soltou e conseguiu acessar o lado exterior da caverna, percebendo que a realidade não se resumia às sombras da parede, mas havia flores, árvores, plantas, animais, etc. Esse sujeito teria voltado para contar a novidade aos outros acorrentados, que não quiseram lhe dar ouvidos. Segundo Platão, os “Amos da Caverna”, uma espécie de elite, seria responsável pela projeção das sombras. Agora sim vamos ao filme. Leia o original de Platão.

Breakfast Club, ou no Brasil conhecido como “O Clube dos Cinco” retrata a história de cinco jovens que ficaram de castigo na detenção da escola, sob a tutela do diretor, com a árdua tarefa de fazer uma redação com o título “Quem sou eu?” 

A patricinha, ou a garota mais popular da escola. O nerd, cujos pais são o estereótipo da família perfeita, aparentemente sem nenhum conflito.  A esquisitona que se veste de preto e brinca com a própria caspa. O atleta, versão masculina da patricinha, igualmente popular. E finalmente aquele que tem posição chave no filme: o rebelde Bender, interpretado pelo ator Judd Nelson.

Bender é quase um proscrito, várias vezes ameaçado de ser banido da escola, proveniente de uma família desajustada, vive sob as ameaças de um padrasto bêbado. Essa personagem, em minha opinião, se movimenta pela história como Sócrates e os demais feito os infelizes habitantes da caverna de Platão. Ele cutuca, ofende, o tempo inteiro tenta extrair a verdade dos companheiros de detenção em provocações que vão desde perguntar à menina popular: “você já beijou”? Até cutucar o nerd com críticas a sua suposta harmonia familiar.

Fato é que “Breakfast Club” lembra muito a proposta do Mito da Caverna, com o aparente intuito de comparar o modelo escolar retratado no filme com a caverna descrita pelo filósofo grego. 

Como disse, não tenho como afirmar se a intenção do diretor do filme, já falecido, foi realmente esta. Mas que parece, parece, evidentemente guardadas as devidas proporções em tudo o que é devido. Aqueles jovens estão ali sentados, graças à contribuição do Bender, questionando a própria existência de uma forma muito leve é claro, afinal devemos lembrar que é um filme para jovens nos anos oitenta, que talvez tenha apenas tangenciado a temática filosófica. Mais a mais hoje, graças à contribuição do professor Paulo Guiraldelli, sei que o “Conhece a ti mesmo” socrático era uma atitude orientada pelos valores e saberes direcionados ao saber coletivo e à vida em sociedade. Segundo Guiraldelli, o exercício proposto pelo filósofo grego, não é voltado para o autoconhecimento, como o que fazem os protagonistas da obra de John Hugues. 

A escola retratada ali, sem dúvida, cumpria o mesmo papel que têm os “Amos da Caverna” na alegoria Platônica. Apenas um aparelho destinado a reproduzir modelos sociais vazios, uma instituição voltada à finalidade burocrática, que pede a cinco jovens algo que provavelmente nem ela própria conseguiria responder: “quem é você?" Longe de afirmar que todas as escolas são assim, mas aquela em específico parece somente um lugar conteudista e punitivo, muito distante de algum tipo de reflexão. Responder “quem é você”, não é algo que deveria ser feito num momento de castigo e sim proposto num longo trabalho reflexivo realizado com alguma qualidade. O colégio em questão potencializa mais uma projeção de sombras na vida daqueles jovens, sem efetivamente apontar para nenhuma perspectiva de pensamento crítico ou libertário. Infelizmente, em nossos dias, há várias sombras lançadas sobre nós, seja por colégios que prezam exclusivamente pela vida profissional de seus alunos, ou por determinadas instituições da sociedade que constantemente projetam sobre nós seus padrões. Um grande exemplo disso são os meios de comunicação. É necessário urgentemente lembrar à esfera governamental que as concessões feitas aos meios de comunicação são públicas e devemos cuidar para que não estejam a serviço de padronização de comportamentos, tipos humanos e consumismo.

Durante o filme todos sofrem um pouco, porque são colocados de frente com algo que ninguém quer encarar: boa parte das vezes, acabamos sendo pintados com alguma cor da qual nós mesmos não gostamos e frequentemente essas tintas assumem nosso lugar, enquanto a essência desvanece. Isso ocorre por diversos motivos: ou porque queremos atender as expectativas que os outros têm em relação a nós; ou porque para que consigamos afirmar nossas próprias personalidades é preciso o autoconhecimento, algo que eles só estavam fazendo naquele momento. Os motivos são diversos. Cada um ali, no fim das contas acaba se descobrindo refém de uma customização social em que foram transformados, em estereótipos de si mesmos.

Matrix, filme revolucionário rodado catorze anos depois, toca num outro ponto da ferida: apropriar-se de conhecimento dói. Ah é claro, uma diferença abismal de abordagem entre as duas narrativas. Entretanto, aqueles jovens, no exercício vespertino proposto, experimentam algum grau desse desconforto inerente às reflexões, algo que nós professores não temos como avisar nossos alunos. Estabelecer-se-ia um paradoxo: por qual motivo alguém gostaria de aprender algo que o levasse a sentir dor? Talvez porque a dor da ignorância é bem pior, pois muitas vezes a vítima nem se dá conta de que está doendo. O conhecimento ao menos permite um diagnóstico de nossas dores.

 

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Professora Renata Saggioro Silva
Professora Renata Saggioro Silva
Sobre Pedagoga, Professora de Educação Básica desde 1996 (Diadema e SBC), Coordenadora Pedagógica (Prefeitura de Diadema), Dançarina profissional e professora de Danças Brasileiras e Ciganas, Pós-Graduada pela USP em “Combate à Violência doméstica contra crianças e adolescentes”, pela PUC em “Teatro e Psicodrama”, pela FMU em “Dança na escola e Danças Brasileiras”, pela IEGABC em “Arte Educação e Psicopedagogia”. Ministrante de alguns cursos e palestras sobre arte-educação.
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