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ROBERTA

29/10/2021 01h37
Por: Redação
ROBERTA

Quanta responsabilidade há em ensinar uma criança a ler. Professores podem ser heróis sem capa na atual conjuntura, mas ainda precisam de muito investimento: apoio financeiro, didático, de formação continuada, de parcerias (das instituições, do governo, da família). Ah, as parcerias... ninguém educa sozinho: professores precisam de uma equipe inteira pra contribuir com o estudante, mas uma equipe que acredite que vai conseguir avançar, uma equipe e uma família que remem “a favor da maré”, e não contra. Já dizia o antigo provérbio africano: “é necessário toda uma aldeia para educar uma criança”. A partir desta reflexão, convidamos o leitor a vivenciar uma história real de sala de aula, escrita pelo professor Ivo Franco.  

Professora Renata Saggioro Silva

Fonte: https://br.pinterest.com/isamarafatimadossantos/desenhos 

Ela chegou em minha sala tímida, cabisbaixa, com postura arqueada, cabelos escondidos numa blusa de touca, olhar enterrado no chão e sem falar quase nada. Era o quarto ano do ciclo e não conseguia ler uma palavra completa.

Não, não era Roberta. Também não vou citar o nome da escola. É importante o compartilhamento de experiências sempre preservando o local de trabalho e a identidade da criança e/ou adolescente em questão. Antes de continuar, é preciso deixar claro que nenhum professor tem em mãos todas as soluções do ensino, é utópico pensar assim. Há alunos que avançam com determinados professores e com outros não. Comigo também não é diferente.

Às vezes, nós professores devemos saber que a alfabetização é um ato extremamente complexo, que não se resume apenas à técnica de ler e escrever. Há muitas variáveis invisíveis envolvidas no processo. Uma série de incógnitas, no sentido literal mesmo, bem mais complicado do que imaginamos: aspectos cognitivos, motores, afetivos, até emocionais. O estudante é um universo a ser lido, por isso ao longo do ano adequamos nosso planejamento ao perfil de cada aluno, assim utilizei todo o “arsenal pedagógico” que tinha à disposição: letras móveis, listas de palavras, busca de palavras em livros, cruzadinhas, ditados, atividades de recorte e colagem, enfim... muitos materiais e dinâmicas. É preciso ter em mente que esses “remédios didáticos” não foram oferecidos exclusivamente à aluna, mas havia naquela sala por volta de trinta, alguns com dificuldades parecidas, outros muito mais avançados e com necessidades diferentes.

Passamos o quarto ano sem obter grandes progressos. Conseguia ler sílabas simples, sem decodificar palavras maiores e estava mais longe ainda de interpretar textos, de compreender frases. Notando que aquela postura era algo recorrente (cabeça baixa, blusa de frio, touca e olhar baixo) vi que deveria chamá-la para uma conversa em particular. Obtive uma resposta depois de algumas tentativas, afinal o medo paralisa e impede o aluno de comunicar o que o aflige:

-Um amigo de minha mãe tentou me ensinar a ler, como não consegui, disse que eu era burra.

Uma palavra mal colocada pode agir como uma barreira quase intransponível à aprendizagem e apreensão de saberes. Nesse caso, fui obrigado a tomar controle da situação:

-Roberta, essa pessoa não tem autoridade para falar isso. Eu sou seu professor e digo que você sabe e tem potencial para ler o que quiser.

Era preciso esperar um pouco a fim de saber quais seriam os efeitos da conversa.

Depois de um tempo, ocorreram algumas mudanças: o queixo outrora enterrado no peito, agora vinha erguido, sendo que a touca já não era mais utilizada para esconder o cabelo longo e enrolado. A postura não era mais arqueada e havia firmeza nos passos. Ocorre que estudou os dois anos seguintes em minha sala, bem empenhada por sinal. Importante destacar isso, porque se o aluno não quer, o professor também não consegue fazer nada, ao contrário do pensamento de muitas pessoas.  Ao final do quinto ano, informei à aluna e à família que ela seria reprovada explicando o motivo: achei que mais um ano no ciclo de alfabetização poderia ser decisivo. 

Voltou a cursar o quinto ano mais uma vez e nem achei que seria comigo, mas por coincidência (será??) lá estava ela novamente. A reprovação aqui, neste caso específico, foi algo fundamental, porque permitiu revisar alguns conceitos e aprofundar outros, sem os quais sabemos que seria muito difícil acompanhar um sexto ano. Em meados de junho, já fazia a leitura de algumas frases de maneira incerta e fragmentada, algo promissor.

Em setembro, para imensa alegria, atingiu fluência na leitura e conseguia compreender as frases lidas.

Tempos antes disso trocara impressões com a professora do ano anterior da aluna acerca dos processos de aprendizagem de Roberta. A colega acompanhava com bastante interesse, por isso, amiúde, falávamos a respeito desse caso, então numa tarde levei-a para ler o trecho de um texto para a antiga professora, que não conteve as lágrimas antes do final do parágrafo! As duas se abraçaram no corredor vazio.

Longe de contar uma história ficcional, esse é o mundo de verdade, onde nesse caso, nossas práticas e o esforço da aluna surtiram efeito, porque há vários casos em que não logramos êxito devido à interposição de diversos fatores. Faltam, entre outras coisas, profissionais qualificados que possam nos prestar apoio em certas situações: psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, psiquiatras, oftalmologistas, entre outros especialistas em educação e saúde.

Essa história por certo ficaria perdida no grande arquivo morto da educação pública, onde nossos feitos não são comemorados como um gol e boa parte das vezes sequer conhecidos. Quis lembrar esse episódio com o fito de demonstrar que por trás de cada dificuldade de aprendizagem talvez haja um caso de violência doméstica, sexual, psicológica, talvez até negligência (quando a família não assume a responsabilidade pela criança ou adolescente), entre outras. Pode parecer algo simples quando o governo diz que vai cortar verbas do ensino ou tirar direitos dos professores, todavia, o que está sendo retirada é a possibilidade de avanço de uma sociedade inteira, está retirando OPORTUNIDADES DOS JOVENS ESTUDANTES, CIDADÃOS DE DIREITO. É quase um eufemismo dizer que vai retirar 10, 20 ou 30% de verbas. O que se retira em essência é a dignidade de um povo!

Ivo Aparecido Franco

Autor dos livros Samurai Voador e “Educação, o Quarto Poder”, este último disponível gratuitamente em ivofranco.wordpress.com  e no formato físico no site Clube de Autores;  Professor de Educação Básica I na rede Municipal de Diadema desde 2009; Formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo; formado em Pedagogia e História pela Unimes;  Contato: [email protected] e Blog: ivofranco.wordpress.com

 

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Professora Renata Saggioro Silva
Sobre Professora Renata Saggioro Silva
Pedagoga, Professora de Educação Básica desde 1996 (Diadema e SBC), Coordenadora Pedagógica (Prefeitura de Diadema), Dançarina profissional e professora de Danças Brasileiras e Ciganas, Pós-Graduada pela USP em “Combate à Violência doméstica contra crianças e adolescentes”, pela PUC em “Teatro e Psicodrama”, pela FMU em “Dança na escola e Danças Brasileiras”, pela IEGABC em “Arte Educação e Psicopedagogia”. Ministrante de alguns cursos e palestras sobre arte-educação.
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