Quando se fala em feminicídio, a sociedade costuma enxergar apenas o desfecho: o crime consumado. A violência explícita. A tragédia estampada nas manchetes.
No entanto, o feminicídio raramente começa no momento da agressão física. Ele é, na maioria das vezes, o ponto final de um processo gradual de desumanização.
Esse processo se inicia quando a mulher deixa de ser reconhecida como sujeito autônomo e passa a ser tratada como extensão do parceiro. O controle se apresenta como cuidado. O ciúme é normalizado como demonstração de afeto. A vigilância é justificada como proteção.
Antes da violência física, há quase sempre violência psicológica.
O isolamento progressivo da rede de apoio, o controle financeiro, a desqualificação constante, a vigilância sobre rotinas e contatos, a diminuição sistemática da autoestima esses são sinais frequentemente ignorados. São formas de violência que não deixam marcas visíveis, mas produzem erosão emocional profunda.
Dados nacionais mostram que grande parte das mulheres vítimas de feminicídio já havia sofrido episódios prévios de violência doméstica. Isso indica que o crime não surge de forma abrupta. Ele se constrói dentro de uma lógica de poder.
É importante afastar a expressão “crime passional”, frequentemente utilizada de maneira inadequada. Feminicídio não é resultado de excesso de amor ou de descontrole momentâneo. Trata-se de um ato extremo vinculado à tentativa de manutenção de domínio quando a autonomia feminina é percebida como ameaça.
Por isso, discutir empreendedorismo feminino, liderança e autonomia financeira não é apenas um debate econômico ou social. É também uma discussão sobre prevenção.
Mulheres com independência financeira e acesso à informação tendem a reconhecer sinais de abuso com maior clareza e possuem mais condições de romper ciclos violentos.
A prevenção ao feminicídio exige atuação em diferentes frentes:
• educação sobre relações saudáveis desde a infância;
• fortalecimento de políticas públicas de proteção;
• ampliação da rede de apoio;
• e enfrentamento cultural da naturalização do controle masculino sobre a vida feminina.
É necessário mudar a pergunta que frequentemente se faz após um crime: “Por que ela não saiu?”
A pergunta estrutural é outra: “Por que ele acreditou que podia controlar?”
O enfrentamento do feminicídio começa antes da agressão física. Começa na cultura, na educação, na construção de autonomia e no reconhecimento de que relacionamento não é sinônimo de hierarquia.
A mudança não acontece apenas no momento da denúncia. Ela começa muito antes quando a sociedade deixa de normalizar o controle e passa a reconhecer seus primeiros sinais.
Thainara Morales Andretta
Empresária , Mãe e especialista em Neurodesenvolvimento & Liderança em Saúde e Educação
Mestre | Doutoranda🧠
ABA • OBM • Neurociências
Palestras|Consultorias|Cursos
