
Professora Renata Saggioro Silva

Só quem é artista sabe o que acontece por detrás dos bastidores. Para cada apresentação, cada espetáculo, não é apenas aquele frio na barriga, ansiedade, nervosismo... que fazem parte (rsrsrs) também não haveria graça se antes de cada “show” não tivéssemos esse ‘pedacinho’ de tensão.
No palco, somos divas, representamos personagens, somos símbolos de delicadeza, perfeição, resistência, dependendo do objetivo de cada ‘show’. Mas de qualquer maneira, o palco é sagrado e somos parte dele quando interpretamos uma cena, quando dançamos, pois representamos algo ou alguém, representamos um lugar ou um povo, por isso todo respeito, concentração, carisma precisam ser levados em conta. Além de que, o coração cheio de amor e gratidão por ter o privilégio de ser o foco das atenções, de ter muitos olhares, muitas pessoas que se organizam para ‘ter um tempo’ pra ir lá te assistir, te prestigiar. Não basta chegar, apresentar e sair do palco, tem que ter “presença” de corpo, alma e coração: conhecer seus limites e potências, dedicar-se antes, durante e muitas vezes, depois, para acolher com respeito e uma escuta ativa as avaliações e resultados.
Tudo começa anos antes ou meses antes: com muito estudo teórico e prático, muitos Mestres que nos ensinam a caminhar, muitos livros que nos guiam pelo caminho da didática, da consciência corporal, da performance cênica.
Em seguida surgem as ideias, as propostas, os projetos e planejamentos: das coreografias, da sequência de passos, das escolhas das músicas. Então, depois de um árduo trabalho de construção, vamos fazendo os ajustes durante os ensaios: são meses de ensaio, de momentos criativos, de construção e reconstrução... para que as cenas, as coreografias saiam perfeitas. Os figurinos, acessórios, cenários, fotos... apropriados para cada momento são pensados, elaborados, registrados e providenciados, e sem perder o foco dos ensaios. O mapa de palco diz onde cada dançarino, cada ator, cada personagem deve se posicionar para o “desenho coreográfico” fique bonito, harmônico para o público, para que todos os personagens (ou dançarinos) sejam vistos em sua atuação.

Também vale lembrar o tempo dedicado, já que no Brasil, geralmente, a arte faz parte de um momento mais “terapêutico”, digamos assim, pois por não ser valorizada (ainda), a dança, o teatro, o circo, a fotografia, o cinema e tantas outras linguagens artísticas, e grande parte de artistas precisa trabalhar em outras áreas para poder sustentar sua arte, para poder dançar ou cantar, interpretar ou criar, seja qual for a linguagem.
Por detrás dos bastidores temos muitas, muitas horas de dedicação, de “sangue, suor e lágrimas”, literalmente. Às vezes um sapato aperta e machuca, um vestido não fecha, uma maquiagem borra, cai café numa vestimenta... a ansiedade aparece. Mas um colega ajuda, acolhe, tranquiliza...

BASTIDORES. Esta palavra pode ser sinônimo de muitas palavras, sentimentos, gestos, momentos desafiadores: organização, planejamento, correria, concentração, amizade, união, ajuda mútua, tensão. Mas também de muito amor pelo que se faz, dedicação. Estar nos bastidores de um espetáculo é estar atento a cada pincelada na maquiagem, é relembrar dos ajustes dos ensaios, é torcer pra não errar a coreografia (e desejar “merda” como se fazia num passado longínquo – vale conferir no rodapé da página), é pensar naqueles que vieram te ver e mesmo não assistindo o espetáculo inteiro, se orgulhar de todos que fazem parte dele, é homenagear pessoas (através de imagens, fotografias, palavras, gestos, músicas. É superar-se enquanto artista e autoconhecer-se enquanto pessoa; é ter a sensibilidade de perceber seus limites e potencialidades.

É nos bastidores que sentimos aquele “frio na barriga”, “borboletas no estômago” e também o momento de “acolhimento”. É nos Bastidores que se faz a preparação para a entrega, “onde a alma ganha o controle do corpo para que tudo vire o mais merecido acontecimento”. É o momento de respirar fundo e seguir em frente, porque “o show não pode parar”. É o momento em que, mesmo desconhecidos, nos tornamos uma grande FAMÍLIA.
Mas, como já dizia Fernando Pessoa, o poeta português, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. E quando estamos nos bastidores, seja na coxia, nos camarins ou no palco, a alegria, o contentamento, a concentração, o “sagrado” nos invadem, e contagiam o público, mostrando que a vida pode ser bela, que podemos ter uma pontinha de esperança, que podemos ser belos, vorazes, potentes, iluminados, valentes e felizes, que podemos contar histórias (nossas ou de outras pessoas), podemos transcender poemas e canções através de palavras, desenhos, imagens, movimentos, coreografias. Para quem vive a correria dos bastidores e o ‘sagrado’ dos palcos, entende, como escreveu Gonzaguinha:

“...viver e não ter a vergonha de ser feliz: cantar e cantar e (*)dançar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor, e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita!...”

E ao final, é nos bastidores que temos o abraço forte, o choro de contentamento, o sorriso de alegria e de missão cumprida, o coração acelerado por tanta parceria, incentivo, aprendizado e de gratidão, de ‘querer mais’. E assim nos ensinou Elis: “VIVER É MELHOR QUE SONHAR..."

E é por isso que a magia, o encantamento, a cultura sobrevivem, são resilientes, são resistentes, porque nós somos resistentes, porque a arte é resistência já que compreendemos, neste turbilhão de encontros e desencontros da vida e dos bastidores, que “...A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar).
Renata Saggioro Silva


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Risso, Gabrielle. Por que as pessoas dizem merda no Teatro? Disponível em https://teatroemescala.com/2019/08/31/por-que-as-pessoas-dizem-merda-no-teatro/ acesso em 22 dez 2026
