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Violência coercitiva: o fenômeno invisível que antecede e potencializa casos de feminicídio

Por: Redação
11/12/2025 às 17h40
Violência coercitiva: o fenômeno invisível que antecede e potencializa casos de feminicídio

Delegada Regina Campanelli

Os dados mais recentes sobre feminicídios somente na cidade de São Paulo-SP, com 53 casos registrados de janeiro a outubro deste ano, um triste recorde histórico, tornaram público aquilo que, para quem atua diariamente na proteção às mulheres, como é o meu caso, já era perceptível: a violência de gênero se intensificou de forma alarmante.

À frente da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher (DDM) de Arujá-SP, constato que este tipo de crime raramente começa com o que chega ao noticiário. Há um padrão conhecido e estudado que abarca ciclos de controle emocional e psicológico, ciúme legitimado como cuidado, humilhações que reduzem a autoestima, e agressões, que, com o tempo, se tornam mais frequentes e mais perigosas.

O feminicídio, neste contexto, não surge como evento inesperado, mas, sim, como o fim trágico de uma escalada que poderia ter sido interrompida desde as primeiras violações.

O caso da mulher que teve as pernas amputadas por ter sido arrastada pelo carro do ex-namorado, na Marginal Tietê, na Vila Maria, Zona Norte de São Paulo, ilustra a dimensão extrema a que a agressão e o ódio contra o público feminino pode chegar quando não há ruptura do ciclo.

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Outro episódio ocorreu dentro de uma pastelaria, no Jardim Fontalis, também na Zona Norte da capital paulista, há poucos dias. Ao chegar no estabelecimento, um homem desferiu seis tiros à queima-roupa na namorada, diante de diversas testemunhas. A escolha de um local público por parte do agressor para o cometimento do delito revela o sentimento de domínio absoluto sobre a vítima e a naturalização da violência, que deixa de ser escondida, velada, e passa a ser exibida como demonstração de machismo e de poder.

Estes casos, embora chocantes, seguem elementos comuns de violência coercitiva: isolamento, manipulação emocional, dependência afetiva, ameaça constante, vigilância e a banalização do sofrimento da mulher.

O papel das DDMs se torna central para garantir atendimento qualificado, acolhimento adequado e apuração rigorosa. Em Arujá, investimos na análise rápida das medidas protetivas, na coleta efetiva de provas digitais e no diálogo constante com os demais serviços da rede de apoio, ampliando a capacidade de prevenção.

Entretanto, nenhuma instituição sozinha é capaz de enfrentar um problema social e estrutural desta monta. O combate à violência contra a mulher requer políticas públicas permanentes, campanhas educativas, conscientização comunitária e formação continuada de profissionais de todas as áreas que a rede de proteção abarca. E, não menos importante: é essencial que a sociedade reconheça que violência doméstica não é assunto privado - é violação de direitos e demanda, desta maneira, que depende de resposta coletiva.

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Como profissional de Segurança Pública, reafirmo que, cada denúncia é uma oportunidade de interromper um ciclo, de proteger uma vida e de mostrar que qualquer tipo de agressão não pode ser tolerado. O feminicídio não é inevitável, mas é passível de prevenção. E preveni-lo é responsabilidade de todos nós — Estado e sociedade — com firmeza, consciência e compromisso permanente.

Dra. Regina Campanelli é delegada de Polícia, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Arujá-SP e da Delegacia de Área de Santa Isabel-SP; pós-graduada em Direito Processual Civil Público; e especialista em Direito Penal, em Processo Penal, em Escuta Especializada de Crianças e Adolescentes, e no Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência Doméstica; é fundadora do movimento "Elas por Elas", e autora da obra jurídica "Elas no Direito".

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