
Ivo Aparecido Franco
Segundo minha amiga Wibberley Beletti, nas suas pesquisas por manuais antigos, a palavra “lira” serviria para designar o primeiro choro de um ser humano na Terra, algo que achei muito pertinente e fundamental, haja vista ser a primeira manifestação da pessoa nesse planeta. Isto é bacana pois a lira foi o primeiro instrumento mencionado nas escrituras sagradas, além de ser também o nome de uma ave que imita perfeitamente o choro de uma criança. Confesso que não sabia da existência uma denominação para isso, mas acho legal, já que a humanidade conta com um nome para o primeiro “tenesmo” (mecônio) que realiza no mundo. Nada mais justo que algo tão poético e aguardado, como o primeiro choro da criança, também tenha nome.
Nessa final, um dos grandes times do Brasil vai chorar feito recém nascido e ficar sem a tão sonhada glória eterna. Desde já, a boa notícia é que o título vem para o Brasil, não para mim que sou corintiano e integro o grupo dos “antis”, evidente, mas para o país, sem dúvida é algo fundamental, a fim de que possamos manter o protagonismo do futebol brasileiro pelo menos nos domínios da América do Sul.
Mais uma final da Libertadores. Mais uma final verde amarela. Flamengo e Palmeiras tem sido o confronto mais recorrente e parelho dos últimos tempos, num cenário futebolístico em que outros clubes do país se perdem em meio ao caos administrativo repleto de dívidas, escândalos e contratos nababescos oferecidos a medalhões. As demais grandes equipes de São Paulo ficam contentes em todo ano apenas garantir vaga para o torneio, sem disputar as finais. Há tempos ostentam dívidas bilionárias que, tão cedo, não haverá como pagar. Contudo, deixemos isto de lado e vamos ao jogo:
Do lado flamenguista Giorgian de Arrascaeta poderá decidir. Quase todos os lances do time rubro-negro passam pelos pés dele e, caso esteja num bom dia, poderá ser fundamental nessa final. No caso do Palmeiras, Vitor Roque é aquele com maior condição de resolver o jogo, uma vez que vem fazendo excelentes partidas, quantidade significativa de gols e assistências. Se estes jogadores estiverem bem marcados, creio que caberá aos meio campistas a tarefa de pisar na área e tentar fazer o gol. Destaque-se também o papel de Flaco Lopes, outro elemento do escrete paulista que vem jogando bem. E sei: Por mais que escrete seja termo fora de moda, é legal a gente resgatar essas palavras da língua portuguesa, porque dá uma sensação bem parecida com a de dirigir carro antigo ou manusear livro velho. Precisamos valorizar o vocabulário novo e preservar o antigo, já que a língua portuguesa é assim tão incrível!
A má notícia é a ausência do atacante Pedro, cujo estilo proporciona momentos de genialidade daquele futebol antigo que tanto apreciamos. O centroavante lesionou a coxa esquerda durante os treinos e não poderá disputar a finalíssima.
Ambos os times apresentam excelentes jogadores e chegam à decisão em condições praticamente iguais de angariar esse título. No entanto, em situações de tanta equivalência, o detalhe mínimo é que geralmente acaba por ser o fiel da balança e qualquer coisa pode colocar tudo a perder para qualquer um dos pretendentes à taça. Em minha opinião, não será um jogo de placar elástico e com muitos tentos, uma vez que o alviverde já teve esse ano uma derrota significativa para o Rubro-Negro. Certamente, Abel Ferreira é sua equipe devem ter estudado a situação para que não se repita.
Creio que o título irá para a Gávea, porque vejo o Flamengo com mais opções no banco de reservas e também me parece uma equipe de maior resiliência e estabilidade. Os confrontos contra o Corinthians, travados pelas duas equipes neste ano, podem fornecer uma boa ideia a respeito disso. O Flamengo mesmo sendo pressionado o tempo todo pelo Timão, soube resistir bem e a tempo de virar o jogo, já o Palmeiras, sequer venceu uma partida contra o combalido e instável alvinegro esse ano.
Observando as últimas finais de Libertadores, existe uma tendência de que o Flamengo leve o título para a Gávea, num resultado apertado e com um gol no fim da partida. Vimos isso ocorrer em Santos e Palmeiras, River e Flamengo e no próprio Flamengo e Palmeiras que decidiu a última disputa de libertadores entre as duas equipes. Este padrão de resultado apertado e de decisão nos últimos minutos parece ser um paradigma que se repete nas últimas finais do torneio sulamericano.
Acredito que depois de muita dificuldade, haverá um gol de bola parada que selará o destino da partida em favor do Flamengo. Apesar da ausência de Pedro, a equipe carioca conta com mais opções técnicas no banco de reservas. O alviverde Paulista nessa temporada é tanto mais previsível e sofre inconstância nos resultados, algo que temos visto ao longo das últimas partidas do brasileirão.
De qualquer modo, que vença o bom futebol!
