
Ivo Aparecido Franco
Há uma tendência de os atletas de hoje realizarem uma série de exigências descabidas e absurdas para jogar futebol. Há inclusive aqueles que cobram para dar um passe, como se tal incumbência fugisse das obrigações desportivas. Essa história não iniciou exatamente ali, no entanto, pelos idos dos anos 2000, Neymar exigiria a fórceps do técnico do Santos à época Dorival Junior, a cobrança de um pênalti. Ele quis cobrar, apesar da ordem contrária do técnico. A imprensa inteira foi favorável, inclusive o craque Neto, de quem sou fã, mas que à época, chancelara a reinação do menino Ney. Anos mais tarde, percebendo o tamanho do erro, Neto retificou sua posição e conseguiu perceber que aquilo que o craque santista fez foi errado. Caso eu tivesse na posição de pai, faria aquilo que um pai deve fazer. Corrigiria, faria pedir desculpas. Naquela época, o único que percebeu o potencial destrutivo das atitudes do jogador foi Rene Simões. O treinador foi categórico "estamos criando um monstro". No calor das batalhas aqui o Brasil, poucos conseguem ter a cabeça no lugar. Rene Simões foi desses.
Cada vez que um jogador toma uma atitude dessas, numa sociedade midiática e tecnológica como a nossa, isto se espraia feito poeira ao vento que cai nos olhos e impede as pessoas de enxergar. Os jovens desejam ser como o suposto "craque" e imitam a marra, deixando de perceber o quão vexatório é estúpido é esse tipo de atitude.
Outro dia uma professora me relatou que ao marcar gol, um aluno se virou para ela e gritou "chupa". Esse tipo de coisa nada mais é do que um espelho da falta de senso dos chamados grandes jogadores. As crianças e os jovens imitam esses comportamentos. Com esse arcabouço moral devastado, cada vez mais é isso que os clubes vão criar: jogadores estúpidos, vaidosos e mimados, que colocam em seus contratos desde "toalhas felpudas" a “coquetéis personalizados”. O efeito menos imediato é a corrupção dos jovens. O mais imediato é a revolta dos companheiros de time. Nas derrotas, o "craque" gesticula, esbraveja, aponta os companheiros de time como se eles fossem os culpados de todos os problemas.
2014 foi uma vergonha é fato. Aquele time ficará marcado na história para sempre como um dos piores de todos os tempos, no entanto, Davi Luiz , Dante e outros, deram a cara. Davi Luiz teve inclusive coragem para dar entrevista depois daquela tragédia.
Modo geral, o que estamos assistindo é um hedonismo terrível, de jogadores ruins que vivem das glórias de Pelé, Rivelino, Gérson, entre outros grandes nomes, de um tempo que já não existe mais. Os atletas de hoje parecem ter o dinheiro como preocupação principal e além disso prestam um desserviço a seus respectivos clubes de futebol. Demais atletas que não recebem tanto quanto o “craque do time” ficam revoltados e param de jogar, desmotivados pelos privilégios injustos dados aos “grandes” jogadores.
O futebol não é uma ilha. A falta de investimento em educação resulta em jogadores de personalidade fraca, que não agüentam perder ou conviver com as dificuldades da vida. Os clubes de futebol deveriam, mas não vão perceber que é tão importante investir na mente dos atletas quanto no preparo técnico e tático. O preço que pagamos é ter de assistir jogos de futebol medíocres.
