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Quem matou PC Farias? Assassinato de tesoureiro de Collor segue sem resposta

Empresário e namorada achados mortos numa mansão em Maceió, pouco antes de depoimento à Justiça sobre esquema de corrupção, há 25 anos

24/06/2021 00h22
Por: Redação Fonte: O GLOBO
Quem matou PC Farias? Assassinato de tesoureiro de Collor segue sem resposta

Ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello e homem forte durante o breve governo do primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura, o advogado Paulo César Farias, mais conhecido como PC Farias, foi encontrado morto com um tiro no peito no dia 23 de junho de 1996, em sua mansão na Praia de Guaxuma, em Maceió, capital de Alagoas. Ao seu lado, também morta com um disparo, estava a sua namorada, Suzana Marcolino.

Na época, PC estava em liberdade condicional e era réu em processos por crimes financeiros, sonegação de impostos, falsidade ideológica e enriquecimento ilícito. Uma figura chave para desvendar a rede de corrupção montada no governo Collor, que tomara posse em 1990 e sofrera um vergonhoso impeachment em 1992. Estima-se que, nos dois anos e meio da gestão do "caçador de marajás", o esquema PC tenha arrecadado, de empresários, o equivalente a US$ 8 milhões. Além disso, teria movimentado cerca de US$ 1 bilhão dos cofres públicos.

As denúncias de corrupção partiram do próprio irmão e arquiinimigo do presidente, o empresário Pedro Collor, que revelou os detalhes de uma rede de tráfico de influências no governo. Após a posse de Collor, as chamadas "sobras de campanha", somadas a uma fortuna obtida através de transações com usineiros, foram depositadas na conta da EPC, empresa de PC Farias, que já havia sido tesoureiro de Collor na sua campanha para o governo de Alagoas.

A EPC, por sinal, chegaria a faturar US$ 55 milhões. No decorrer do governo, o esquema PC continuou arrecadando propinas, engordando as contas bancárias de políticos e pagando as despesas pessoais de Collor e de sua mulher, Rosane. Com a extinção do cheque ao portador, o esquema PC começou a usar "fantasmas". Estes movimentaram pelo menos US$ 32,2 milhões.

Após o impeachment e a renúncia de Collor, PC Farias fugiu do país, para não ser preso, num bimotor pilotado por Jorge Bandeira de Mello, seu sócio na empresa de táxi aéreo Brasil-Jet. No dia 30 de junho de 1993, o juiz Pedro Paulo Castelo Branco, da 10ª Vara Federal de Brasília, decretou a prisão preventiva de Paulo César Farias por crime de sonegação fiscal. No dia 5 de agosto, foi a vez de o STF decretar a prisão preventiva de PC e de Jorge Bandeira, no processo a que respondiam por corrupção. Localizado em Londres, no dia 20 de outubro de 1993, pelo repórter Roberto Cabrini, da TV Globo, a quem concedeu uma entrevista exibida no "Jornal Nacional", PC acabou sendo deportado e, posteriormente, preso em Bancoc, na Tailândia.

No dia 6 de julho de 1993, Rosinete Melanias, que confessou ter assinado por sete "fantasmas" do esquema PC, telefonou para a Polícia Federal e fez um acordo para se apresentar. Rosinete estava em seu sítio em Jundiaí, São Paulo e exigiu que sua prisão não fosse registrada pela imprensa. Em 1994, descobriu-se que PC Farias tinha contas na Europa que seriam movimentadas pela máfia. Enquanto cumpria pena, PC conheceu Suzana Marcolino e, em 1995, ganhou liberdade condicional. A sua morte, em junho de 1996, ocorreu menos de uma semana antes de depor à Justiça sobre as ligações entre empresas e o governo.

A investigação da morte do ex-tesoureiro de Collor, porém, acabou se tornando uma guerra de laudos e acusações. Um relatório do perito Badan Palhares, que ganhara fama identificando os corpos de desaparecidos da ditadura, apontava que Suzana teria matado PC e se suicidado. O motivo? A moça teria descoberto que o ex-tesoureiro de Collor mantinha um romance com outra mulher e planejava abandoná-la. Mas outra dupla de peritos, George Sanguinetti e Ricardo Molina, derrubou a vesão de Palhares, alegando que, pela posição dos corpos, a hipótese de assassinato seguido de suicício era inviável.

Os policiais militares Adeildo Costa dos Santos, Reinaldo Correia de Lima Filho, Josemar Faustino dos Santos e José Geraldo da Silva foram acusados pelo crime. Eles atuavam como seguranças particulares de PC e estavam na casa de praia na madrugada das mortes. Em 2013, um júri popular concluiu que PC e Suzana foram ambos assassinados.

Por clemência, em decisão por 4 votos a 3, os jurados absolveram dois dos quatro seguranças acusados de homicídio qualificado. Os outros dois, segundo os jurados, não tinham responsabilidade pela proteção das vítimas naquela noite. O autor do crime, porém, permaneceu desconhecido.

O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, no dia 12 de novembro de 2002, o arquivamento do inquérito que apurou a morte de PC Fárias e de sua namorada. Assim, o então deputado federal Augusto Farias (PPB-AL), irmão de Paulo César e um dos acusados do duplo homicídio, não responderia mais pelos crimes. A decisão beneficiou também o responsável pelo laudo pericial, Badan Palhares, acusado de falsa perícia, de acordo com reportagem do GLOBO publicada no dia seguinte. Segundo o relator do processo, ministro Sepúlveda Pertence, se o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, pediu o arquivamento, o STF só poderia determinar o encerramento do inquérito, ainda que não concorde.

 

 

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